Verdade Letal

Existem verdades que só a morte pode revelar

Adam Mitchell, réu confesso de duplo homicídio, está no corredor da morte.

É seu último dia de vida e ele não pensa em liberdade ou sobrevivência, isso já não importa.

Sua única esperança é a verdade um dia se revelar.
Seus executores não sabem, mas ele tem um plano que começou a ser arquitetado antes mesmo de ser preso e que poderá abalar os alicerces do poder e mudar os rumos da nação.
Um plano simples, porém audacioso.

Nove anos após a execução de Adam, sua filha, Elena, recebe um cartão com uma mensagem perturbadora que transformará a sua história.

Um segredo tão doloroso e marcante quanto o inferno que viveu na infância está para se revelar – e, surpreendentemente, ainda pode envolver o homem prestes a se tornar o próximo presidente dos Estados Unidos.
Ao se lançar numa arriscada corrida em busca de respostas, Elena vai descobrir aos poucos que a verdade que procura pode ser dolorosa, perversa e implacavelmente LETAL!

INTRODUÇÃO

Hoje é o meu último dia de vida.

Olho para as minhas mãos, o tremor parou, mas agora a minha cabeça parece que vai explodir. Não me lembro da última vez que dormi.

Deito de costas no concreto frio e fecho os olhos. Pensar nela me perturba de um jeito irracional. Será que ela vai entender? Será que vai conseguir? Esse é meu último pedido.

Puxo o ar com força. Uma, duas, três vezes, mas meu coração não desacelera. Sinto a pulsação vibrando no meio da minha garganta. Mordo a pele do meu pulso direito até meus dentes se encontrarem. O fluido morno tem gosto de vingança, o veneno que me manteve vivo até hoje.

Ouço o barulho de uma trinca deslizando e passos no corredor da morte. Conto até doze. Sei exatamente o tempo que eles levam para chegar em minha cela. A luz natural que começava a encher o lugar desaparece de repente substituída pelo clarão frio e incandescente.

Alguém chama o meu nome. Me levanto e fico a dois passos da grade. Sinto a palma da minha mão úmida, o líquido quente escorre pelos dedos e goteja no concreto áspero.

Chegou a hora…

CAPÍTULO 1

Nove anos depois…

Um som agudo, estridente e vigoroso invadiu o ambiente. Depois de um barulho extremo o silêncio parece mais doce. Quase dez da manhã e Elena ainda jogada na cama.

Abriu um olho só e gemeu, torcendo para que aquele som não se repetisse, mas ele voltou, e mais longo: era a campainha. Virou seu rosto na direção do criado-mudo e levou um susto ao ver o relógio.

– Putz, atrasada! – veio à sua mente o olhar pouco amigável de Joey. – Maldito despertador! Nunca funciona quando preciso dele. Merda!

Levantou-se num salto, já procurando a surrada calça jeans que deveria estar jogada pelo chão. Não encontrou. Começou a praguejar com mais fúria. Só então olhou para o velho relógio digital que esquecera de tirar do pulso, antes de dormir. “Eu não programei você, seu inútil? Que inferno!”

Três letrinhas no visor do relógio lhe deram a melhor notícia do dia: “SUN”. Era domingo!

– Ahh… – suspirou. Lembrou-se que teria folga naquele e no próximo domingo.
Jogou-se de costas sobre a cama e esperou desacelerar o coração.

A campainha tocou pela terceira vez.

– Já vai! – gritou.

Imaginou que não havia ninguém em casa. Os tios deveriam ter ido ao mercado e Edward não acordaria nem se houvesse um terremoto. Elena olhou mais uma vez para o criado-mudo e viu a pequena caixa de veludo vermelha, que a fez se lembrar da noite anterior e da sua animada festa de vinte e um anos. Recordou o irmão lhe entregando aquela joia simples e fazendo uma careta engraçada ao mesmo tempo. Era uma gargantilha fina como um fio de cabelo, banhada a ouro e com um pequeno pingente de prata de um urso panda.

“Idiota”, pensou enquanto bocejava, esfregando os olhos.

Vestiu-se rapidamente e desceu correndo as escadas, descalça.

Olhou pela fresta da cortina da porta: um senhor, aparentando mais de sessenta anos, estava parado com um envelope nas mãos. Usava um paletó preto surrado e uma camisa branca, onde faltava um dos botões. No entanto, nem de longe lembrava um pedinte ou coisa assim.

Abriu a porta.

– Pois não?

– Elena Mitchell? – ele questionou.

Ela mexeu os ombros instintivamente e suspirou. Não gostava de ouvir o sobrenome do pai.

– O que o senhor quer?

– Isto aqui é para você – ele estendeu um envelope pardo, sem nenhuma inscrição. Elena pegou o objeto, curiosa.

– Posso saber do que se trata?

O homem permaneceu alguns segundos estudando a moça diante de si, preparando-se. Pigarreou, colocou uma das mãos no bolso do paletó, e então disse:

– Trabalhei muitos anos na Prisão Federal de Everett – falou num tom de voz mais baixo e desviou o olhar. Precisava ter cuidado em proferir aquelas palavras. Sabia o que significavam para Elena.

Ela sentiu o coração acelerar e percebeu um leve formigamento nas pontas dos dedos. Era uma coisa estranha e pensou que não queria sentir aquilo de novo.

Abaixou a cabeça e fechou os olhos, não conseguia disfarçar. O sujeito tentou melhorar a situação.

– Eu conhecia seu pai. Ele… – fez uma pausa e encarou Elena que agora piscava os olhos que estavam ficando vermelhos. – Ele me pediu que lhe entregasse isto – apontou para o envelope.

Ela imediatamente o estendeu de volta, com o rosto contrariado.

– Não quero. Por favor, vá embora – e começou a fechar a porta.

Ele não pegou o envelope e com o pé impediu que a porta se fechasse. Fez uma expressão de súplica, como um mendigo a implorar um prato de comida.

Elena suspirou profundamente. Estava visivelmente irritada. Ficou algum tempo analisando aquele rosto. Ele não demonstrava que desistiria tão facilmente e ela achou melhor ceder, mesmo imaginando que poderia se arrepender depois.

O sujeito recomeçou a falar de forma mansa, pausada, tentando colocar sentimento em cada palavra:

– Moça, isso está comigo há nove anos – olhou mais uma vez para o envelope. – Eu conduzi meu velho Taurus por 150 quilômetros – virou-se para o sedã verde desbotado, estacionado em frente. – Nem tenho mais idade para isso. Minha mulher brigaria comigo se soubesse que dirigi até aqui – acrescentou num tom de brincadeira.

Elena não sorriu, e ele ficou constrangido. Passaram-se segundos de silêncio entre ambos, preenchidos pelo som do móbile que havia na porta e era levemente movido pelo vento.

– Me desculpe moça, eu nem me apresentei – o homem disse para contornar melhor a situação, sabendo que aquela não seria uma tarefa tão fácil. Havia previsto isso. – Meu nome é Smith. Brian Smith. Sou apenas um velho aposentado do sistema prisional dos Estados Unidos. Pigarreou e tossiu, mais de nervosismo do que por outra coisa qualquer. – Seu pai me pediu que lhe entregasse isto – voltou ao assunto de forma mais firme enquanto olhava para o envelope. Elena o segurava sem muita vontade. – Que o fizesse quando você completasse vinte e um anos. Confiou em mim. Por favor, aceite. De certa forma, essa tarefa foi uma benção. Parece algo bobo, mas o fato de saber que eu tinha essa missão me ajudou a superar algumas crises nesses últimos nove anos. Eu precisava chegar até esse dia. Pois bem, aqui estou – afirmou com ar de vitória e um sorriso sincero. – Depois, se achar que realmente não vale a pena, rasgue, queime, faça o que quiser; mas, por favor, dê-lhe uma chance. Leia o que está aí dentro.

Elena, que começava a se sensibilizar com o discurso, ficou com o rosto vermelho, de repente. Percebeu-se novamente irritada.

– Ele deu uma chance para minha mãe? Uma chance para mim?! – o tom de voz se alterou e seus olhos ficaram vidrados. O homem percebeu que ela iria chorar e ficou sem jeito. Cruzou os braços e pigarreou nervosamente. Recusava o envelope que ela tentava devolver.

– Por favor – disse num sussurro –, posso entrar?

Ela revirou os olhos, num tique nervoso, e acenou com a cabeça. Percebeu que não adiantaria negar e convidou-o a entrar. Ela sentou-se numa cadeira com o espaldar alto e aveludado e ele no sofá bege de dois lugares, ao lado da lareira. O homem não se deu ao trabalho de estudar o local. Não tirava os olhos da sua anfitriã e do envelope.

Elena tremia levemente.

“Por que uma visita indesejada tinha que aparecer logo depois de uma noite tão agradável? Por que, depois de tanto tempo, teria de desenterrar aqueles demônios? Por que não poderia simplesmente viver sua vida sem passar noites chorando de desespero e raiva, como fizera durante tanto tempo? Por quê? Meu pai era um monstro. Um assassino frio e cruel. Um homem que destruiu a minha vida”.

Elena revirou novamente os pensamentos que a atormentaram durante tanto tempo. Tinha vontade de gritar aquilo na cara daquele estranho sentado à sua frente. Instintivamente passou os dedos da mão pelo relevo da cicatriz no pulso direito.

– Por favor – o homem fez um sinal para o envelope, despertando Elena do seu transe momentâneo.

– Você vai esperar que eu veja o que tem aqui?

Ele fez que sim com a cabeça.

– Adam me pediu apenas duas coisas – disse numa voz firme e cadenciada: – que lhe entregasse o envelope e estivesse presente quando você o lesse. Queria ter certeza disso.

Elena experimentou um arrepio ao ouvir aquele nome, dito de forma tão despretensiosa: Adam. Odiava esse nome.

– Você sabe o que está escrito aqui?

O homem virou o rosto por um instante, depois voltou a encará-la. Olhou dentro dos olhos de Elena, mas não respondeu.

“Claro que sabe”, ela concluiu.

Finalmente rasgou a ponta do envelope. Fechou os olhos. Queria adiar ao máximo aquele instante. Queria que o tempo congelasse naquela fração de segundo e a levasse para outro lugar qualquer. Lembrou-se do sangue, da agonia, do medo, de como fora difícil lidar com aquilo. Tanto sofrimento, tanta dor. Respirou fundo, incomodada com o fato de ter um estranho na sala, com os olhos grudados nela.

Retirou do envelope um pequeno cartão-postal. A princípio estranhou que fosse somente aquilo. Revirou o envelope para conferir se não havia mais nada dentro. Esperava uma carta, ou algo assim. No entanto, tinha apenas um velho cartão-postal. A foto, em tom de sépia envelhecido, retratava o interior de igreja católica. Havia imagens de santos e pessoas estavam ajoelhadas diante delas. A imagem que mais se destacava era de uma santa com um manto verde ou azul, não dava para ter certeza da cor. Elena ficou alguns segundos olhando para aquela cena, sem se concentrar em nenhum ponto específico. Tinha medo de virar o cartão. Quando o fez, fitou o texto.

Levou menos de trinta segundos para ler o conteúdo.

Assim que terminou, chorava e soluçava tanto que o homem não soube o que fazer.