APOCALIPSiOS

Foi logo após a hecatombe nuclear.

O céu estava azul-petróleo com as bordas alaranjadas. Cinzas vulcânicas deixavam o ar denso, o oxigênio era rarefeito.

Os móveis da casa transformaram-se num monte de entulho. Fumaça cheirando a enxofre atravessava as paredes rachadas misturada com um líquido gosmento.

Os poucos cabelos de Jonathan haviam derretido com o calor.

Suas mãos exibiam bolhas pavorosas e respirar era algo extremamente doloroso.

Mas ele estava vivo!

Avistou o vulto da esposa no chão. Percebeu um movimento sutil.

– Beth! Beth! – gritou.

Num esforço descomunal ela levantou a cabeça e olhou para ele.

– Cadê o meu iPhone?!

 

#projeto100palavras#20  copyright – Marcos Bulzara

A UM PASSO DA FELICIDADE

Carlinhos entrou correndo em casa.

Nem fechou a porta.

O vento atrás dele derrubou os papéis sobre a mesa. Não disse oi pra ninguém, nem mesmo para seu buldogue francês, Edmundo, que rosnou triste e voltou a deitar ao lado da geladeira mastigando seu pato de borracha sebento.

Atravessou o corredor como um náufrago que tivesse visto um farol. Invadiu o quarto e jogou-se sobre a cama.

Somente então teve coragem de abrir a carta. As mãos tremiam, os olhos lacrimejavam, o suor escorria.

Começou a ler: “parabéns, você foi… ” – acordou molhado pela lambida generosa e gosmenta de Edmundo.

 

#projeto100palavras#19  copyright – Marcos Bulzara

UMA VIDA ESQUECIDA

Genésio estava eufórico.

Imaginava os cumprimentos acalorados, os tapinhas na cabeça, a festinha na copa com bolo e suco de limão que dona Eufrásia faria.

Afinal, era seu aniversário.

Saltou do ônibus dois pontos antes, passos trôpegos, dolorosos. Precisava treinar melhor o discurso, as palavras bonitas que dirigiria aos cinco colegas.

Ou eram seis?

Não importa, eles ficariam emocionados. Repetiriam que ele deveria ser escritor, que suas palavras eram tão lindas quanto um feriado de sexta-feira.

Parou diante do prédio.

Até reconheceu o lugar, só não sabia que não trabalhava ali há mais de trinta anos.

Tampouco era seu aniversário.

 

#projeto100palavras#18  copyright – Marcos Bulzara

PONTO DE VISTA

– É azul.

– Verde.

– Azul.

– Verde.

– Você é burro ou o quê?

– Burra é você que não sabe as cores.

– Eu conheço muito bem as cores, seu chato.

– Acho que não.

– Bigorna, que cor é essa? – o cão abanou o rabo e latiu uma resposta.

– A mamãe vai rir na sua cara.

Rárá, é de você que ela vai rir.

– Tonta.

– Bobo.

A mãe chegou das compras. Os dois correram desesperadamente, cada um segurando um pé do Scarpin.

– Mãe, o Juninho é cego.

– Mãe, a Bia é mais cega ainda.

– Por que, raios, vocês estão brincando com meu novo sapato vermelho!

 

#projeto100palavras#17  copyright – Marcos Bulzara

RESPOSTAS

Ele procurava respostas.

E elas estavam além daquele monte. Era o que diziam.

O caminho durou noventa dias.

Enfrentou estradas tortuosas e subidas íngremes com o sol escaldante a lhe queimar os olhos. Precisou racionar a água.

O último pão ele comeu a cinco dias da chegada.

Os pés sangravam deixando pegadas vermelhas pelo caminho. As costas ardiam de dor.

Até que avistou o cume diante de si. Havia chegado. Teria as respostas.

Finalmente!

Sorriu pela primeira vez em anos.

Subiu ao topo.

Estava cansado, com fome, sede e dor, mas feliz.

E então, perplexo, avistou outras dezenas de cumes.

 

#projeto100palavras#16  copyright – Marcos Bulzara

SPREAD

– Nossa, como ele fofo! Da última vez que o vi estava magrinho. Se bem que magrinho, magrinho ele nunca foi, né amiga?

Um silêncio constrangedor foi a resposta.

– Lindo! – apertou as bochechas do menino.

A mãe do garoto ergueu uma sobrancelha e encarou a mulher.

Sabia que a outra era falsa e invejosa. Ela queria era ter um filho como o seu: loiro, bonito, dentes fortes e que até inglês falava.

Mas tinha um menino esquelético, remelento e desdentado.

– Você é muito fofo, mocinho. Como é mesmo o nome dele?

A mulher suspirou de impaciência. Pergunta ridícula.

– Dólar – respondeu.

 

#projeto100palavras#15  copyright – Marcos Bulzara

INVEJA

Foi uma revolução.

Começou com Matilde. Espalhou-se pela propriedade como fogo de palha. Em pouco tempo todas estavam engajadas na causa.

Urravam e batiam os pés fazendo a terra tremer.

– Por que os porcos tem melhores comidas do que nós? – era a pergunta a ser respondida.

– Sem refeição digna, sem leite! – Matilde ordenava furiosa.

– Sem leite! – repetiam em uníssono as insurgentes.

A propósito, Matilde era uma vaca.

Os porcos olhavam atônitos do outro lado da cerca. Não entendiam aquela algazarra. Só pensavam – com suspiros de desejo reprimido – em como seria bom se empanturrar com aquela grama verdinha das vizinhas tetudas.

 

#projeto100palavras#14   copyright – Marcos Bulzara

IMPEACHMENT

– Onde eu assino?

– Aqui – o homem engravatado apontou o traço na parte de baixo do documento, disfarçando o mal-estar.

A mulher olhou aquele papel ainda sem entender o que estava acontecendo. Chorava.

Era uma situação embaraçosa, um vexame pessoal. Seu poder escorrendo entre os dedos.

Aquele bando de abutres em sua volta com sorrisos de escárnio e vingança era o mesmo que a adorava algum tempo atrás.

Inúteis! – pensou.

Respirou fundo. O relógio marcava 16h38min, a hora exata da sua rendição, da sua vergonha.

Assinou o papel.

E a partir daquele instante não era mais a síndica do seu prédio.

 

#projeto100palavras#13   copyright – Marcos Bulzara

INDECISÃO

– Uau, este ficou lindo! Perfeito! Ma-ra-vi-lho-so! Dessa vez você acertou, rapaz – sorriu para ele.

Marcelo arregalou os olhos, sentiu o coração inflar no peito.

Havia uma alegria incontida dentro dele. Mais do que isso, havia esperança. Quase chorou.

Aquele sorriso da cliente, aqueles olhos brilhantes, aquela voz decidida.

Finalmente!

No chão, ao lado do provador, uma montanha de roupas chegava ao teto.

– Ficou lindo na senhora – ele beijou a ponta dos dedos.

Mas então aconteceu. Ela olhou-se de novo no espelho.

– Não sei…

Ele congelou. Parou de respirar.

– Você tem vermelho?

O infeliz sumiu dentro do estoque.

Nunca mais voltou.

 

#projeto100palavras#12   copyright – Marcos Bulzara

A MÁQUINA DO TEMPO

A geringonça ficou pronta depois de 28 anos de muito trabalho, investimento, falência e um divórcio.

Aristides sentou-se eufórico na cadeira de comando.

Faria a viagem da sua vida. Sabia que era uma só (e sem volta).

Recuperaria a esposa.

Ajustou a data: 5 de setembro. Ano: 1981.

Apertou “ignição”.

Um som ensurdecedor tomou conta do ambiente e, repentinamente, tudo sumiu…

Aos poucos a luz voltou.

Silêncio.

Assombro!

Viu-se numa caverna no alto de um morro. Figuras pré-históricas nas paredes.

O painel exibia: 05/09/1981 a.c.

Aristides olhou inocentemente para seu smartphone buscando um milagre. Não havia sinal.

Maldita Tim! – pensou.

 

#projeto100palavras#9 copyright – Marcos Bulzara

REMISSÃO

Os joelhos dele se dobraram e o corpo desabou junto com a chuva que começou a descer impiedosa.

Sentia no peito uma dor, como se o coração estivesse sendo esmagado.

Lágrimas.

As pessoas aos pouco foram embora deixando-o sozinho.

Abandonado.

A grama foi se encharcando, terra se amalgamando com água, formando uma lama viscosa e impura.

As coroas de flores definhavam açoitadas pelo aguaceiro.

Ele tinha os olhos vermelhos cor de sangue.

Seus lábios se moveram, as mãos agarraram com fúria o barro e, enfim, encontrou forças para gritar a sentença que guardou por mais de vinte anos:

“Pai, perdão!”

 

#projeto100palavras#11   copyright – Marcos Bulzara

FLA-FLU

Quarta-feira.

Alberto subiu correndo as escadas de três em três degraus. Tentava arrancar a gravata enquanto segurava a pasta executiva e os sacos de doritos e linguiça numa das mãos. O fardo de cerveja, a picanha e o carvão equilibravam-se na outra.

Tarefa humanamente impossível.

A pança balançava feito gelatina. Ficou sem fôlego, sentiu uma tremedeira incontrolável. O coração entupido de gordura enfartou quando colocou a chave na porta.

A picanha amorteceu a queda no meio da sala.

Num último suspiro alcançou o controle remoto.

Apertou play no exato momento em que seu time fazia um gol.

Alberto morreu feliz.

 

#projeto100palavras#10  copyright – Marcos Bulzara

XAVECO

– Oi. Você vem sempre aqui?

Ele imaginou que seria uma boa cantada. Talvez desse certo. Estavam os dois juntos, agarrados mesmo, espremidos entre uma multidão por força de alguma circunstância que não saberiam explicar.

Destino, pensava ele. Suplício, pensava ela.

Ela tinha um tom de pele mais brilhante, quase perolado, que o deixou ligadão.

Havia um líquido viscoso, escorregadio, encharcando seus pés. Ela estava preocupada. Ele tentava demonstrar coragem.

Subitamente um calor começou, bem de leve, a crescer embaixo deles.

Cada vez mais, cada vez mais, cada vez mais…

Suavam incontroladamente.

De repente, PLOC, PLOC.

Viraram duas crocantes pipocas branquinhas.

 

#projeto100palavras#8  copyright – Marcos Bulzara

DIVERGENTE

Era uma vez um lobo de conto de fadas.

Péricles (sua mãe apreciava pagode) tinha um coração bondoso e amável, diferente de todos os lobos de contos de fadas, que eram genuinamente maus.

Também era vegetariano. Achava ridículo animais que comiam outros animais. “Deveríamos nos unir” – pensava.

Um dia ele descobriu que era apenas um personagem. Havia sido criado com um propósito: perseguir e acabar com a vida de uma tal Chapeuzinho Vermelho.

Péricles rebelou-se. Não obedeceu seu criador.

Deixou para trás a floresta encantada e casou-se com a Peppa Pig.

Hoje vive feliz como guia de um lenhador cego.

 

#projeto100palavras#7  copyright – Marcos Bulzara

FACTIBILIDADE

– Dá!

– Não dá.

– Dá.

– Não dá!

– Dá, mas que coisa! Eu provo que dá para escrever uma história com cem palavras. falando.

– E eu tenho certeza de que não dá.

– Pois eu vou escrever uma história exatamente sobre essa discussão. Você vai ver. E vai ter que enfiar o rabo entre as pernas.

– Mas daí é fácil. É só ficar nesse dá, não dá, dá, não dá, até o contador zerar.

– Ué, mas a história é minha. Faço do jeito que quiser.

– Tá bom. E como termina essa história? Quero só ver.

– Quando terminar, te mostro.

– Não dá.

– Dá.

 

#projeto100palavras#6  copyright – Marcos Bulzara

DA SILVA

– Elvis Presley Frank Sinatra da Silva – ele respondeu acanhado.

Apesar da experiência, ela virou o rosto e gargalhou. Foi involuntário. Uma gargalhada gostosa. Humilhante como um tapa na face. Já ouvira muitos nomes engraçados, mas foi inevitável. Pais estúpidos, homenagens estúpidas – pensou.

Ele não gostou.

Com o rosto vermelho de raiva gritou um palavrão indecifrável e levantou-se repentinamente derrubando a cadeira no chão. O banco inteiro virou-se em sua direção e ele continuou desfilando uma saraivada de impropérios impublicáveis.

O gerente surgiu como um relâmpago. Analisou a cena e fuzilou a funcionária com o olhar.

– O que você aprontou, Britneymadona?

 

#projeto100palavras#5  copyright – Marcos Bulzara

ARMAGEDOM

14h38min.

Era a hora exata do fim do mundo.

Um gigantesco asteroide vinha em direção a Terra numa velocidade vinte vezes a do som.

Pessoas gritavam pelas ruas, lançavam-se de pontes, escabelavam-se desesperadas.

Terror coletivo.

Jurema mantinha-se calma, ocupada com seu tricô. Tricotava como se nada estivesse acontecendo, como se houvesse amanhã.

Às 14h37 olhou para o relógio de parede. Não deveria ter olhado. Bateu o desespero. Apressou tanto a última carreira que ela acabou torta.

O asteroide passou raspando. A NASA havia errado os cálculos.

E Jurema, olhando para o seu trabalho malfeito, jurou nunca mais conferir as horas.

 

#projeto100palavras#4  copyright – Marcos Bulzara

APROXIMAÇÃO

              – Bom dia senhores passageiros. Aqui quem fala é o comandante Bernardes. Estamos fazendo a aproximação ao Aeroporto Internacional de Madri. Devemos aterrissar em cerca de vinte minutos.

              – Olá senhores passageiros, é o comandante Bernardes. Estamos quase chegando ao nosso destino. Fiquem tranquilos, esse ruído é apenas um pequeno defeito hidráulico. Está sendo solucionado.

              – Senhores passageiros NÃO SE DESESPEREM, ESSE  BARULHO NÃO DEVE SER NADA DE MAIS. Vamos aterrissar em cinco minutos. SE DEUS QUISER.

              – Senhores passageiros, agradecemos sua escolha pela nossa companhia aérea. Tenham todos um bom dia… A propósito, alguém sabe como fazer descer esse maldito trem de pouso!

#projeto100palavras#3  copyright – Marcos Bulzara

INIMIGO ÍNTIMO

Era uma ilha deserta.

O naufrágio acontecera há vinte e nove anos.

Somente os dois haviam sobrevivido. E apesar da companhia compulsória, jamais se falavam.

Eram inimigos, afinal.

Mortais.

Fosse numa metrópole ou no meio de uma ilha no oceano indico. Viravam-se cada um ao seu jeito.

Até o dia em que um navio surgiu no horizonte.

Precisavam fazer algo. Urgente.

Olharam-se carrancudos e, sem trocar palavra alguma, apagaram o fogo.

Preferiam continuar amargando aquela vida a dar o prazer da salvação ao outro.

O navio desapareceu lentamente na imensidão.

O rapaz falou com ela pela primeira vez:

– Valeu, sogra.

 

#projeto100palavras#2  copyright – Marcos Bulzara

O PROFISSIONAL

– Nunca! – o velho respondeu gritando. – Jamais errei – repetiu com mágoa no olhar.

A moça tremia tanto que poderia transformar clara em neve se pusessem uma tigela em suas mãos. Estava a dez metros dele, encostada num círculo de madeira.

– Mas…

– Cala a boca, fica parada! Não quer o emprego?

Ela fez que sim, chorando.

Geraldo fora um exímio atirador de facas, mas estava aposentado há muitos anos. Queria voltar. Precisava de dinheiro. Procurava uma assistente de palco corajosa (e irresponsável).

Num gesto ágil, inesperado, atirou a primeira faca.

E constatou, sobressaltado, que precisava arrumar outro jeito de ganhar a vida.

 

#projeto100palavras#1  copyright – Marcos Bulzara